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Title: Livro de Mgoas
Author: Espanca, Florbela (1894-1930)
Date of first publication: 1919
Edition used as base for this ebook:
   Coimbra: Gonalves, 1934 (_Sonetos Completos_)
Date first posted: 21 August 2009
Date last updated: 21 August 2009
Project Gutenberg Canada ebook #374

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Titre: Livro de Mgoas
Auteur: Espanca, Florbela (1894-1930)
Date de la premire publication: 1919
dition utilise comme modle pour ce livre
   lectronique: Coimbra: Gonalves, 1934 (_Sonetos Completos_)
Date de la premire publication sur Project Gutenberg Canada:
   21 aot 2009
Date de la dernire mise  jour:
   21 aot 2009
Livre lectronique de Project Gutenberg Canada no 374

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Notas de transcrio:

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O texto em itlico foi marcado com _.




LIVRO DE MGOAS

(1919)




   _Procuremos smente a Beleza, que a vida
     um punhado infantil de areia ressequida
    Um som d'gua ou de bronze e uma sombra que passa..._

                          EUGNIO DE CASTRO.

   _Isols dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
    Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,
    Seront deux rossignols que chantent dans le soir._

                                      VERLAINE.




STE LIVRO...


  ste livro  de mgoas. Desgraados
  Que no mundo passais, chorai ao l-lo!
  Smente a vossa dor de Torturados
  Pode, talvez, senti-lo... e compreend-lo.

  ste livro  para vs. Abenoados
  Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
  Bblia de tristes...  Desventurados,
  Que a vossa imensa dor se acalme ao v-lo!

  Livro de Mgoas... Dores... Ansiedade!
  Livro de sombras... Nvoas... e Sadades!
  Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...)

  Irmos na Dor, os olhos razos de gua,
  Chorai comigo a minha imensa mgoa,
  Lendo o meu livro s de mgoas cheio!...




VAIDADE


  Sonho que sou a Poetisa eleita,
  Aquela que diz tudo e tudo sabe,
  Que tem a inspirao pura e perfeita,
  Que rene num verso a imensidade!

  Sonho que um verso meu tem claridade
  Para encher todo o mundo! E que deleita
  Mesmo aqules que morrem de sadade!
  Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

  Sonho que sou Algum c neste mundo...
  Aquela de saber vasto e profundo,
  Aos ps de quem a terra anda curvada!

  E quando mais no cu eu vou sonhando,
  E quando mais no alto ando voando,
  Acordo do meu sonho...
                       E no sou nada!...




EU


  Eu sou a que no mundo anda perdida,
  Eu sou a que na vida no tem norte,
  Sou a irm do Sonho, e desta sorte
  Sou a crucificada... a dolorida...

  Sombra de nvoa tnue e esvaecida,
  E que o destino amargo, triste e forte,
  Impele brutalmente para a morte!
  Alma de luto sempre incompreendida!...

  Sou aquela que passa e ningum v...
  Sou a que chamam triste sem o ser...
  Sou a que chora sem saber porqu...

  Sou talvez a viso que Algum sonhou,
  Algum que veio ao mundo p'ra me ver
  E que nunca na vida me encontrou!




CASTEL DA TRISTEZA


  Altiva e couraada de desdm,
  Vivo szinha em meu castelo: a Dor!
  Passa por le a luz de todo o amor...
  E nunca em meu castelo entrou algum!

  Castel da Tristeza, vs?... A quem?...
  --E o meu olhar  interrogador--
  Prescruto, ao longe, as sombras do sol-pr...
  Chora o silncio... nada... ningum vem...

  Castel da Tristeza, porque choras
  Lendo, tda de branco, um livro de oras,
   sombra rendilhada dos vitrais?...

  A noite, debruada p'las ameias,
  Porque rezas baixinho?... Porque anseias?...
  Que sonho afagam tuas mos reais?...




TORTURA


  Tirar dentro do peito a Emoo,
  A lcida Verdade, o Sentimento!
  --E ser, depois de vir do corao,
  Um punhado de cinza esparso ao vento!...

  Sonhar um verso d'alto pensamento,
  E puro como um ritmo d'orao!
  --E ser, depois de vir do corao,
  O p, o nada, o sonho dum momento...

  So assim cos, rudes, os meus versos:
  Rimas perdidas, vendavais dispersos,
  Com que eu iludo os outros, com que minto!

  Quem me dera encontrar o verso puro,
  O verso altivo e forte, estranho e duro,
  Que dissesse, a chorar, isto que sinto!




LGRIMAS OCULTAS


  Se me ponho a cismar em outras eras
  Em que ri e cantei, em que era qu'rida,
  Parece-me que foi noutras esferas,
  Parece-me que foi numa outra vida...

  E a minha triste bca dolorida
  Que dantes tinha o rir das primaveras,
  Esbate as linhas graves e severas
  E cai num abandono de esquecida!

  E fico, pensativa, olhando o vago...
  Toma a brandura plcida dum lago
  O meu rosto de monja de marfim...

  E as lgrimas que choro, branca e calma,
  Ningum as v brotar dentro da alma!
  Ningum as v cair dentro de mim!




TRRE DE NVOA


  Subi ao alto,  minha Trre esguia,
  Feita de fumo, nvoas e luar,
  E pus-me, comovida, a conversar
  Com os poetas mortos, todo o dia.

  Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
  Dos versos que so meus, do meu sonhar,
  E todos os poetas, a chorar,
  Responderam-me ento: Que fantasia,

  Criana doida e crente! Ns tambm
  Tivemos iluses, como ningum,
  E tudo nos fugiu, tudo morreu!...

  Calaram-se os poetas, tristemente...
  E  desde ento que eu choro amargamente
  Na minha Trre esguia junto ao Cu!...




A MINHA DOR

A Voc.


  A minha Dor  um convento ideal
  Cheio de claustros, sombras, arcarias,
  Aonde a pedra em convulses sombrias
  Tem linhas dum requinte escultural.

  Os sinos tm dobres d'agonias
  Ao gemer, comovidos, o seu mal...
  E todos tm sons de funeral,
  Ao bater horas, no correr dos dias...

  A minha Dor  um convento. H lrios
  Dum roxo macerado de martrios,
  To belos como nunca os viu algum!

  Nesse triste convento aonde eu moro,
  Noites e dias rezo e grito e choro,
  E ningum ouve... ningum v... ningum...




DIZERES NTIMOS


   to triste morrer na minha idade!
  E vou ver os meus olhos, penitentes
  Vestidinhos de roxo, como crentes
  Do soturno convento da Sadade!

  E logo vou olhar (com que ansiedade!...)
  As minhas mos esguias, languescentes,
  De brancos dedos, uns bbs doentes
  Que ho de morrer em plena mocidade!

  E ser-se novo  ter-se o Paraso.
   ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
  Aonde tudo  luz e graa e riso!

  E os meus vinte e trs anos... (Sou to nova!)
  Dizem baixinho a rir: Que linda a vida!...
  Responde a minha Dor: Que linda a cova!




AS MINHAS ILUSES


  Hora sagrada dum entardecer
  D'Outono,  beira-mar, cr de safira.
  Soa no ar uma invisvel lira...
  O sol  um doente a enlanguescer...

  A vaga estende os braos a suster.
  Numa dor de revolta cheia de ira,
  A doirada cabea que delira
  Num ltimo suspiro, a estremecer.

  O sol morreu... e veste luto o mar...
  E eu vejo a urna d'oiro, a baloiar,
   flor das ondas num lenol de espuma.

  As minhas iluses, doce tesoiro,
  Tambm as vi levar em urna d'oiro.
  No Mar da Vida, assim... uma por uma...




NEURASTENIA


  Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
  Um sino dobra em mim, Ave-Marias!
  L fora, a chuva, brancas mos esguias,
  Faz na vidraa rendas de Veneza...

  O vento desgrenhado, chora e reza
  Por alma dos que esto nas agonias!
  E flocos de neve, aves brancas, frias,
  Batem as asas pela Natureza...

  Chuva... tenho tristeza! Mas porqu?
  Vento... tenho sadades! Mas de qu?
   neve que destino triste o nosso!

   chuva!  vento!  neve! Que tortura!
  Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
  Digam isto que sinto que eu no posso!!...




PEQUENINA

 Maria Helena Falco Risques.


  s pequenina e ris... A bca breve
   um pequeno idlio cr de rosa...
  Haste de lrio frgil e mimosa!
  Cofre de beijos feito sonho e neve!

  Doce quimera que a nossa alma deve
  Ao Cu que assim te fz to graciosa!
  Que nesta vida amarga e tormentosa
  Te fz nascer como um perfume leve!

  O ver o teu olhar faz bem  gente...
  E cheira e sabe, a nossa bca, a flores
  Quando o teu nome diz, suavemente...

  Pequenina que a Me de Deus sonhou,
  Que ela afaste de ti aquelas dores
  Que fizeram de mim isto que sou!




A MAIOR TORTURA

A Um Grande Poeta de Portugal.


  Na vida, para mim, no h deleite.
  Ando a chorar convulsa noite e dia...
  E no tenho uma sombra fugidia
  Onde poise a cabea, onde me deite!

  E nem flor de lilaz tenho que enfeite
  A minha atroz, imensa, nostalgia...
  A minha pobre Me to branca e fria
  Deu-me a beber a Mgoa no seu leite!

  Poeta, eu sou um cardo desprezado,
  A urze que se pisa sob os ps.
  Sou, como tu, um riso desgraado!

  Mas a minha tortura 'inda  maior:
  No ser poeta assim como tu s
  Para gritar num verso a minha Dor!...




A FLOR DO SONHO


  A flor do Sonho alvssima, divina,
  Miraculosamente abriu em mim,
  Como se uma magnlia de setim
  Fsse florir num muro todo em runa.

  Pende em meu seio a haste branda e fina
  E no posso entender como  que, emfim,
  Essa to rara flor abriu assim!...
  Milagre... fantasia... ou talvez, sina...

   Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
  Que tem que sejam tristes os meus olhos
  Se les so tristes pelo amor de ti?!...

  Desde que em mim nasceste em noite calma,
  Voou ao longe a asa da minh'alma
  E nunca, nunca mais eu me entendi...




NOITE DE SADADE


  A Noite vem pousando devagar
  Sbre a terra que inunda de amargura...
  E nem sequer a bno do luar
  A quis tornar divinamente pura...

  Ningum vem atrs dela a acompanhar
  A sua dor que  cheia de tortura...
  E eu oio a Noite imensa soluar!
  E eu oio soluar a Noite escura!

  Porque s assim to 'scura, assim to triste?
   que talvez,  Noite, em ti existe
  Uma Sadade igual  que eu contenho!

  Sadade que eu no sei donde me vem...
  Talvez de ti,  Noite!... Ou de ningum!...
  Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!




ANGSTIA


  Tortura do pensar! Triste lamento!
  Quem nos dera calar a tua voz!
  Quem nos dera c dentro, muito, a ss,
  Estrangular a hidra num momento!

  E no sequer pensar!... E o pensamento
  Sempre a morder-nos bem, dentro de ns...
  Qu'rer apagar no Cu-- sonho atroz!--
  O brilho duma estrla, com o vento!...

  E no se apaga, no... nada se apaga.
  Vem sempre rastejando como a vaga...
  Vem sempre preguntando: O que te resta?...

  Ah! no ser mais que o vago, o infinito!
  Ser pedao de gelo, ser granito,
  Ser rugido de tigre na floresta!




AMIGA


  Deixa-me ser tua amiga, Amor;
  A tua amiga s, j que no queres
  Que pelo teu amor seja a melhor
  A mais triste de tdas as mulheres.

  Que s, de ti, me venha mgoa e dor
  O que me importa a mim?! O que quiseres.
   sempre um sonho bom! Seja o que fr
  Bemdito sejas tu por mo dizeres!

  Beija-me as mos, Amor, devagarinho...
  Como se os dois nascessemos irmos,
  Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

  Beija-mas bem!... Que fantasia louca
  Guardar assim, fechados, nestas mos,
  Os beijos que sonhei p'ra minha bca...




DESEJOS VOS


  Eu qu'ria ser o Mar d'altivo porte
  Que ri e canta, a vastido imensa!
  Eu qu'ria ser a pedra que no pensa,
  A Pedra do caminho, rude e forte!

  Eu qu'ria ser o sol, a luz intensa,
  O bem do que  humilde e no tem sorte!
  Eu qu'ria ser a rvore tsca e densa
  Que ri do mundo vo e at da morte!

  Mas o Mar tambm chora de tristeza...
  As rvores, tambm, como quem reza,
  Abrem, aos Cus os braos, como um crente!

  E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,
  Tem lgrimas de sangue na agonia!
  E as Pedras... essas... pisa-as tda a gente!...




PIOR VELHICE


  Sou vlha e triste. Nunca o alvorocer
  Dum riso so andou na minha bca!
  Gritando que me acudam, em voz rouca,
  Eu, Nufraga da Vida, ando a morrer!

  A Vida que ao nascer enfeita e touca
  D'alvas rosas, a fronte da mulher,
  Na minha fronte mstica de louca
  Martrios s poisou a emmurchecer!

  E dizem que sou nova... A mocidade
  Estar s, ento, na nossa idade,
  Ou est em ns e em nosso peito mora?!...

  Tenho a pior velhice, a que  mais triste,
  Aquela onde nem sequer existe
  Lembrana de ter sido nova... outrora...




A UM LIVRO


  No silncio de cinzas do meu Ser
  Agita-se uma sombra de cipreste.
  Sombra roubada ao livro que ando a ler
  A sse livro de mgoas que me deste.

  Estranho livro aqule que escreveste,
  Artista da sadade e do sofrer!
  Estranho livro aqule em que puseste
  Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

  Leio-o e folheio, assim, tda a minh'alma!
  O livro que me deste  meu e psalma
  As oraes que choro e rio e canto!...

  Poeta igual a mim, ai quem me dera
  Dizer o que tu dizes!... Quem soubera
  Velar a minha Dor dsse teu manto!...




ALMA PERDIDA


  Tda esta noite o rouxinol chorou,
  Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
  Alma de rouxinol, alma da gente,
  Tu s, talvez, algum que se finou!

  Tu s, talvez, um sonho que passou,
  Que se fundiu na Dor, suavemente...
  Talvez sejas a alma, alma doente
  D'algum que quis amar e nunca amou!

  Tda a noite choraste... e eu chorei
  Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
  Que ningum  mais triste do que ns!

  Contaste tanta coisa  noite calma,
  Que eu pensei que tu eras a minh'alma
  Que chorasse perdida em tua voz!...




DE JOELHOS


  Bemdita seja a me que te gerou.
  Bemdito o leite que te fz crescer.
  Bemdito o bero aonde te embalou
  A tua alma, p'ra te adormecer!

  Bemdita essa cano que acalentou
  Da tua vida o doce alvorecer...
  Bemdita seja a lua que inundou
  De luz, a terra, s para te ver...

  Bemditos sejam todos que te amarem,
  As que em volta de ti ajoelharem
  Numa grande paixo fervente e louca!

  E se mais que eu, um dia, te quiser
  Algum, bemdita seja essa Mulher,
  Bemdito seja o beijo dessa bca!!




LANGUIDEZ


  Tardes da minha terra, doce encanto,
  Tardes duma pureza d'aucenas,
  Tardes de sonho, as tardes de novenas,
  Tardes de Portugal, as tardes d'Anto,

  Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!...
  Horas bemditas, leves como penas,
  Horas de fumo e cinza, horas serenas,
  Minhas horas de dor em que eu sou santo!

  Fecho as plpebras roxas, qusi pretas,
  Que poisam sbre duas violetas,
  Asas leves cansadas de voar...

  E a minha bca tem uns beijos mudos...
  E as minhas mos, uns plidos veludos,
  Traam gestos de sonho pelo ar...




PARA QU?


  Tudo  vaidade neste mundo vo...
  Tudo  tristeza; Tudo  p,  nada!
  E mal desponta em ns a madrugada,
  Vem logo a noite encher o corao!

  At o amor nos mente, essa cano
  Que o nosso peito ri  gargalhada,
  Flor que  nascida e logo desfolhada,
  Ptalas que se pisam pelo cho!

  Beijos d'amor! P'ra qu?!... Tristes vaidades!
  Sonhos que logo so realidades,
  Que nos deixam a alma como morta!

  S acredita nles quem  louca!
  Beijos d'amor que vo de bca em bca,
  Como pobres que vo de porta em porta!...




AO VENTO


  O vento passa a rir, torna a passar,
  Em gargalhadas sp'ras de demente;
  E esta minh'alma trgica e doente
  No sabe se h de rir, se h de chorar!

  Vento de voz tristonha, voz plangente,
  Vento que ris de mim, sempre a troar,
  Vento que ris do mundo e do amar,
  A tua voz tortura tda a gente!...

  Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
  Desabafa essa dor a ss comigo,
  E no rias assim!...  vento, chora!

  Que eu bem conheo, amigo, sse fadrio
  Do nosso peito ser como um calvrio,
  E a gente andar a rir p'la vida fora!!...




TDIO


  Passo plida e triste. Oio dizer
  Que branca que ela ! Parece morta!
  E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
  No tenho um gesto, ou um olhar sequer...

  Que diga o mundo e a gente o que quiser!
  --O que  que isso me faz?... O que me importa?...
  O frio que trago dentro gela e corta
  Tudo que  sonho e graa na mulher!

  O que  que me importa?! Essa tristeza
   menos dor intensa que frieza,
   um tdio profundo de viver!

  E  tudo sempre o mesmo, eternamente...
  O mesmo lago plcido, dormente...
  E os dias, sempre os mesmos, a correr...




MINHA TRAGDIA


  Tenho dio  luz e raiva  claridade
  Do sol, alegre, quente, na subida.
  Parece que a minh'alma  perseguida
  Por um carrasco cheio de maldade!

   minha v, intil mocidade
  Trazes-me embriagada, entontecida!...
  Duns beijos que me destes noutra vida,
  Trago em meus lbios roxos, a sadade!...

  Eu no gosto do sol, eu tenho mdo
  Que me leiam nos olhos o segrdo
  De no amar ningum, de ser assim!

  Gosto da Noite imensa, triste, preta,
  Como esta estranha e doida borboleta
  Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...




SEM REMDIO


  Aqules que me tm muito amor
  No sabem o que sinto e o que sou...
  No sabem que passou, um dia a Dor,
   minha porta e, nesse dia, entrou.

  E  desde ento que eu sinto ste pavor,
  ste frio que anda em mim, e que gelou
  O que de bom me deu Nosso Senhor!
  Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

  Sinto os passos da Dor, essa cadncia
  Que  j tortura infinda, que  demncia!
  Que  j vontade doida de gritar!

  E  sempre a mesma mgoa, o mesmo tdio,
  A mesma angstia funda, sem remdio,
  Andando atrs de mim, sem me largar...




MAIS TRISTE


   triste, diz a gente, a vastido
  Do Mar imenso! E aquela voz fatal
  Com que le fala, agita o nosso mal!
  E a Noite  triste como a Extrma-Uno!

   triste e dilacera o corao
  Um poente do nosso Portugal!
  E no vem que eu sou... eu... afinal,
  A coisa mais magoada das que o so?!...

  Poentes d'agonia trago-os eu
  Dentro de mim e tudo quanto  meu
   um triste poente de amargura!

  E a vastido do Mar, tda essa gua
  Trago-a dentro de mim num Mar de Mgoa!
  E a Noite sou eu prpria! A Noite escura!!




VLHINHA


  Se os que me viram j cheia de graa
  Olharem bem de frente para mim,
  Talvez, cheios de dor digam assim:
  J ela  vlha! Como o tempo passa!...

  No sei rir e cantar por mais que faa!
   minhas mos talhadas em marfim,
  Deixem sse fio d'oiro que esvoaa!
  Deixem correr a vida at ao fim!

  Tenho vinte-e-trs anos! Sou vlhinha!
  Tenho cabelos brancos e sou crente...
  J murmuro oraes... falo szinha...

  E o bando cr de rosa dos carinhos
  Que tu me fazes, olho-os indulgente,
  Como se fsse um bando de ntinhos...




EM BUSCA DO AMOR


  O meu Destino disse-me a chorar:
  Pela estrada da Vida vai andando;
  E, aos que vires passar, interrogando
  Acrca do Amor que hs de encontrar.

  Fui pela estrada a rir e a cantar,
  As contas do meu sonho desfiando...
  E noite e dia,  chuva e ao luar,
  Fui sempre caminhando e preguntando...

  Mesmo a um vlho eu preguntei: Vlhinho
  Viste o Amor acaso em teu caminho?
  E o vlho estremeceu... olhou... e riu...

  Agora pela estrada, j cansados
  Voltam todos p'ra trs desanimados...
  E eu paro a murmurar: Ningum o viu!...




IMPOSSVEL


  Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
  Parece Sexta-feira de Paixo.
  Sempre a cismar, cismar, d'olhos no cho,
  Sempre a pensar na dor que no existe...

  O que  que tem?! To nova e sempre triste!
  Faa por 'star contente! Pois ento?!...
  Quando se sofre o que se diz  vo...
  Meu corao, tudo, calado ouviste...

  Os meus males ningum mos adivinha...
  A minha Dor no fala, anda szinha...
  Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!...

  Os males d'Anto tda a gente os sabe!
  Os meus... ningum... A minha Dor no cabe
  Nos cem milhes de versos que eu fizera!...




[End of _Livro de Mgoas_ by Florbela Espanca]

[Fin de _Livro de Mgoas_ par Florbela Espanca]
