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Title: Reliqui
Author: Espanca, Florbela (1894-1930)
Date of first publication: 1931
Edition used as base for this ebook:
   Coimbra: Gonalves, 1934 (_Sonetos Completos_)
Date first posted: 23 August 2009
Date last updated: 23 August 2009
Project Gutenberg Canada ebook #375

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Titre: Reliqui
Auteur: Espanca, Florbela (1894-1930)
Date de la premire publication: 1931
dition utilise comme modle pour ce livre
   lectronique: Coimbra: Gonalves, 1934 (_Sonetos Completos_)
Date de la premire publication sur Project Gutenberg Canada:
   23 aot 2009
Date de la dernire mise  jour:
   23 aot 2009
Livre lectronique de Project Gutenberg Canada no 375

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Notas de transcrio:

Foram feitas correces adicionais que no vinham na errata:

* Pgina 175, linha 11 "Navios--fantasmas, perdem-se a distncia!"
corrigida para "Navios-fantasmas, perdem-se a distncia!"




RELIQUI


    VERSOS PSTUMOS PUBLICADOS PELA PRIMEIRA VEZ COM A 2. EDIO DA
    CHARNECA EM FLOR, EM 1931.




VORA

    Ao Amigo Vindo da luminosa Itlia, a minha cidade, como eu soturna e
    triste...


  vora! Ruas ermas sob os cus
  Cr de violetas roxas... Ruas frades
  Pedindo em triste penitncia a Deus
  Que nos perde as mseras vaidades!

  Tenho corrido em vo tantas cidades!
  E s aqui recordo os beijos teus,
  E s aqui eu sinto que so meus
  Os sonhos que sonhei noutras idades!

  vora!... O teu olhar... o teu perfil...
  Tua bca sinuosa, um ms de Abril,
  Que o corao no peito me alvoroa!

  ...Em cada viela o vulto dum fantasma...
  E a minh'alma soturna escuta e pasma...
  E sente-se passar _menina-e-moa_...




 JANELA DE GARCIA DE REZENDE


  Janela antiga sbre a rua plana...
  Ilumina-a o luar com seu claro...
  Dantes, a descansar de luta insana,
  Fui, talvez, flor no potico balco...

  Dantes! Da minha glria altiva e ufana,
  Talvez... Quem sabe?... Tonto de iluso,
  Meu rude corao de alentejana
  Me palpitasse ao luar nesse balco...

  Mstica dona, em outras primaveras,
  Em refulgentes horas de outras eras,
  Vi passar o cortejo ao sol doirado...

  Bandeiras! Pagens! O pendo real!
  E na tua mo, vermelha, triunfal,
  Minha divisa: um corao chagado!...




O MEU IMPOSSVEL


  Minh'alma ardente  uma fogueira acesa,
   um brasido enorme a crepitar!
  Ansia de procurar sem encontrar
  A chama onde queimar uma incerteza!

  Tudo  vago e incompleto! E o que mais pesa
   nada ser perfeito.  deslumbrar
  A noite tormentosa at cegar,
  E tudo ser em vo! Deus, que tristeza!...

  Aos meus irmos na dor j disse tudo
  E no me compreenderam!... Vo e mudo
  Foi tudo o que entendi e o que pressinto...

  Mas se eu pudesse, a mgoa que em mim chora,
  Contar, no a chorava como agora,
  Irmos, no a sentia como a sinto!...




EM VO


  Passo triste na vida e triste sou
  Um pobre a quem jamais quiseram bem!
  Um caminhante exausto que passou,
  Que no diz onde vai nem donde vem.

  Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdm
  A flor da minha bca desdenhou!
  Solitrio convento onde ningum
  A silenciosa cela procurou!

  E eu quero bem a tudo, a tda a gente!...
  Ando a amar assim, perdidamente,
  A acalentar o mundo nos meus braos!

  E tem passado, em vo, a mocidade
  Sem que no meu caminho uma sadade
  Abra em flores a sombra dos meus passos!




VOZ QUE SE CALA


  Amo as pedras, os astros e o luar
  Que beija as ervas do atalho escuro,
  Amo as guas de anil e o doce olhar
  Dos animais, divinamente puro.

  Amo a hera que entende a voz do muro,
  E dos sapos, o brando tilintar
  De cristais que se afagam devagar,
  E da minha charneca o rosto duro.

  Amo todos os sonhos que se calam
  De coraes que sentem e no falam,
  Tudo o que  Infinito e pequenino!

  Asa que nos protege a todos ns!
  Soluo imenso, eterno, que  a voz
  Do nosso grande e msero Destino!...




PARA QU?

    Ao vlho amigo Joo.


  Para qu ser o musgo do rochedo
  Ou urze atormentada da montanha?
  Se a arranca a ansiedade e o mdo
  E ste enleio e esta angstia estranha

  E todo ste feitio e ste enrdo
  Do nosso prprio peito? E  tamanha
  E to profunda a gente que o segrdo
  Da vida como um grande mar nos banha?

  P'ra que ser asa quando a gente voa
  De que serve ser cntico se entoa
  Tda a cano de amor do Universo?

  Para qu ser altura e ansiedade,
  Se se pode gritar uma Verdade
  Ao mudo vo nas slabas dum verso?




SONHO VAGO


  Um sonho alado que nasceu um instante,
  Erguido ao alto em horas de demncia...
  Gotas de gua que tombam em cadncia
  Na minh'alma tristssima, distante...

  Onde est le o Desejado? O Infante?
  O que h de vir e amar-me em doida ardncia?
  O das horas de mgoa e penitncia?
  O Prncipe Encantado? O eleito? O Amante?

  E neste sonho eu j nem sei quem sou...
  O brando marulhar dum longo beijo
  Que no chegou a dar-se e que passou...

  Um fogo-ftuo rtilo, talvez...
  E eu ando a procurar-te e j te vejo!...
  E tu j me encontraste e no me vs!...




PRIMAVERA


   primavera agora, meu Amor!
  O campo despe a veste de estamenha;
  No h rvore nenhuma que no tenha
  O corao aberto, todo em flor!

  Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
  Da vida... no h bem que nos no venha
  Dum mal que o nosso orgulho em vo desdenha!
  No h bem que no possa ser melhor!

  Tambm despi meu triste burel pardo,
  E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
  E ando agora tonta,  tua espera...

  Pus rosas cr de rosa em meus cabelos...
  Parecem um rosal! Vem desprend-los!
  Meu Amor, meu Amor,  Primavera!...




BLASFMIA


  Silncio, meu Amor, no digas nada!
  Cai a noite nos longes donde vim...
  Tda eu sou alma e amor, sou um jardim,
  Um ptio alucinante de Granada!

  Dos meus clios a sombra enluarada,
  Quando os teus olhos descem sbre mim,
  Traa trmulas hastes de jasmim
  Na palidez da face extasiada!

  Sou no teu rosto a luz que o alumia,
  Sou a expresso das tuas mos de raa,
  E os beijos que me ds j foram meus!

  Em ti sou Glria, Altura e Poesia!
  E vejo-me--milagre cheio de graa!--
  Dentro de ti, em ti igual a Deus!...




O TEU OLHAR


  Passam no teu olhar nobres cortejos,
  Frotas, pendes ao vento sobranceiros,
  Lindos versos de antigos romanceiros,
  Cus do Oriente, em brasa, como beijos,

  Mares onde no cabem teus desejos;
  Passam no teu olhar mundos inteiros,
  Todo um povo de heris e marinheiros,
  Lanas nuas em rtilos lampejos;

  Passam lendas e sonhos e milagres!
  Passa a ndia, a viso do Infante em Sagres,
  Em centelhas de crena e de certeza!

  E ao sentir-te to grande, ao ver-te assim,
  Amor, julgo trazer dentro de mim
  Um pedao da terra portuguesa!

Outubro, 1930.




NOITE DE CHUVA


  Chuva... Que gotas grossas!... Vem ouvir:
  Uma... duas... mais outra que desceu...
   Viviana,  Melusina, a rir,
  So rosas brancas dum rosal do cu...

  Os lilazes deixaram-se dormir...
  Nem um frmito... a terra emmudeceu...
  Amor! Vem ver estrlas a cair:
  Uma... duas... mais outra que desceu...

  Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
  Que essa fala de amor seja um gemido,
  Um murmrio, um soluo, um ai desfeito...

  Ah, deixa  noite o seu encanto triste!
  E a mim... o teu amor que mal existe,
  Chuva a cair na noite do meu peito!




TARDE DE MSICA


  S Schumann, meu Amor! Serenidade...
  No assustes os sonhos... Ah, no varras
  As quimeras... Amor, seno esbarras
  Na minha vaga imaterialidade...

  Liszt, agora o brilhante; o piano arde...
  Beijos alados... ecos de fanfarras...
  Ptalas dos teus dedos feitos garras...
  Como cai em p de oiro o ar da tarde!

  Eu olhava para ti...  lindo! Ideal!
  Gemeram nossas vozes confundidas.
  --Havia rosas cr de rosa aos molhos--

  Falavas de Liszt e eu... da musical
  Harmonia das plpebras descidas,
  Do ritmo dos teus clios sbre os olhos...




CHOPIN


  No se acende hoje a luz... Todo o luar
  Fique l fora. Bem Aparecidas
  As estrlas midinhas, dando no ar
  As voltas dum cordo de margaridas!

  Entram falenas meio entontecidas...
  Lusco-fusco... um morcego a palpitar,
  Passa... torna a passar... torna a passar...
  As coisas tem o ar de adormecidas...

  Mansinho... Roa os dedos p'lo teclado,
  No vago arfar que tudo alteia e doira,
  Alma, Sacrrio de Almas, meu Amado!

  E, emquanto o piano a doce queixa exala,
  Divina triste, a grande sombra loira,
  Vem para mim da escurido da sala...




O MEU DESEJO


  Vejo-te s a ti no azul dos cus.
  Olhando a nuvem de oiro que flutua...
   minha perfeio que criou Deus
  E que num dia lindo me fz sua!

  Nos vultos que diviso pela rua,
  Que cruzam os seus passos com os meus...
  Minha bca tem fome s da tua!
  Meus olhos tm sde s dos teus!

  Sombra da tua sombra, doce e calma,
  Sou a grande quimera da tua alma
  E, sem viver, ando a viver contigo...

  Deixa-me andar assim no teu caminho
  Por tda a vida, Amor devagarinho,
  At a morte me levar consigo...




ESCRAVA


   meu Deus,  meu dono,  meu senhor,
  Eu te sado, olhar do meu olhar,
  Fala da minha bca a palpitar,
  Gesto das minhas mos tontas de amor!

  Que te seja propicio o astro e a flor,
  Que a teus ps se incline a terra e o mar,
  P'los sculos dos sculos sem-par,
   meu Deus,  meu dono,  meu senhor!

  Eu, doce e humilde escrava, te sado,
  E, de mos postas, em sentida prece,
  Canto teus olhos de oiro e de veludo.

  Ah, sse verso imenso de ansiedade,
  sse verso de amor que te fizesse
  Ser eterno por tda a Eternidade!...




DIVINO INSTANTE


  Ser uma pobre morta inerte e fria,
  Hiertica, deitada sob a terra,
  Sem saber se no mundo h paz ou guerra,
  Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,

  Luz apagada ao alto e que alumia,
  Bca fechada  fala que no erra,
  Urna de bronze que a Verdade encerra,
  Ah! Ser Eu essa morta inerta e fria!

  Ah, fixar o efmero! sse instante
  Em que o teu beijo sfrego de amante
  Queima o meu corpo frgil de mbar loiro;

  Ah, fixar o momento em que, dolente,
  Tuas plpebras descem, lentamente,
  Sbre a vertigem dos teus olhos de oiro!




SILNCIO!...


  No fadrio que  meu, neste penar,
  Noite alta, noite escura, noite morta,
  Sou o vento que geme e quere entrar,
  Sou o vento que vai bater-te  porta...

  Vivo longe de ti, mas que me importa?
  Se eu j no vivo em mim! Ando a vaguear
  Em roda  tua casa, a procurar
  Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

  Estou junto de ti e no me vs...
  Quantas vezes no livro que tu ls
  Meu olhar se poisou e se perdeu!

  Trago-te como um filho nos meus braos!
  E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos...
  Silncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!...




O MAIOR BEM


  ste querer-te bem sem me quereres,
  ste sofrer por ti constantemente,
  Andar atrs de ti sem tu me veres
  Faria piedade a tda a gente.

  Mesmo a beijar-me a tua bca mente...
  Quantos sangrentos beijos de mulheres
  Poisa na minha a tua bca ardente,
  E quanto engano nos seus vos dizeres!...

  Mas que me importa a mim que me no queiras,
  Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
  ste msero pungir, rduo e profundo

  Do teu frio desamor, dos teus desdens,
  E, na vida, o mais alto dos meus bens?
   tudo quanto eu tenho neste mundo?




OS MEUS VERSOS


  Rasga sses versos que eu te fiz, Amor!
  Deita-os ao nada, ao p, ao esquecimento,
  Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
  Que a tempestade os leve aonde fr!

  Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
  Que volte ao nada o nada dum momento!
  Julguei-me grande pelo sentimento,
  E pelo orgulho ainda sou maior!...

  Tanto verso j disse o que eu sonhei!
  Tantos penaram j o que eu penei!
  Asas que passam, todo o mundo as sente...

  Rasga os meus versos... Pobre endoidecida!
  Como se um grande amor c nesta vida
  No fsse o mesmo amor de tda a gente!...




AMOR QUE MORRE


  O nosso amor morreu... Quem o diria!
  Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
  Cguinho de te ver, sem ver a conta
  Do tempo que passava, que fugia!

  Bem estava a sentir que le morria...
  E outro claro, ao longe, j desponta!
  Um engano que morre... e logo aponta
  A luz doutra miragem fugidia...

  Eu bem sei, meu Amor, que p'ra viver
  So precisos amores, p'ra morrer
  E so precisos sonhos p'ra partir.

  Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
  Fazer do amor que parte o claro riso
  Doutro amor impossvel que h de vir!




SBRE A NEVE


  Sbre mim, teu desdm, pesado jaz
  Como um manto de neve... Quem dissera
  Porque tombou em plena primavera
  Tda essa neve que o inverno traz!

  Coroavas-me 'inda h pouco de lils
  E de rosas silvestres... quando eu era
  Aquela que o Destino prometera
  Aos teus rtilos sonhos de rapaz!

  Dos beijos que me deste no te importas,
  Asas paradas de andorinhas mortas...
  Flhas de outono em correria louca...

  Mas 'inda um dia, em mim, brio de cr,
  H de nascer um roseiral em flor
  Ao sol de primavera doutra bca!




EU NO SOU DE NINGUM...


  ........................................
  ........................................
  ........................................
  ........................................

  Eu no sou de ningum!... Quem me quiser
  H de ser luz do sol em tardes quentes;
  Nos olhos de gua clara h de trazer
  As flgidas pupilas dos videntes!

  H de ser seiva no boto repleto,
  Voz no murmrio do pequeno insecto,
  Vento que enfuna as velas sbre os mastros!...

  H de ser Outro e Outro num momento!
  Fra viva, brutal, em movimento,
  Astro arrastando catadupas de astros!




VO ORGULHO


  Neste mundo vaidoso o amor  nada,
   um orgulho a mais, outra vaidade,
  A coroa de loiros desfolhada
  Com que se espera a Imortalidade.

  Ser Beatriz! Natrcia! Irrealidade...
  Mentira... Engano de alma desvairada...
  Onde est dsses braos a verdade,
  Essa fogueira em cinzas apagada?...

  Mentira! No te quis... no me quiseste...
  Eflvios subtis dum bem celeste?
  Gestos... palavras sem nenhum condo...

  Mentira! No fui tua... no! Smente...
  Quis ser mais do que sou, mais do que gente,
  No alto orgulho de o ter sido em vo!...




LTIMO SONHO DE SROR SADADE

    quele que se perdera no caminho...

  Sror Sadade abriu a sua cela...
  E, num encanto que ningum traduz,
  Despiu o manto negro que era dela,
  Seu vestido de noiva de Jesus.

  E a noite escura, extasiada, ao v-la,
  As brancas mos no peito qusi em cruz,
  Teve um brilhar ferico de estrla
  Que se esfolhasse em ptalas de luz!

  Sror Sadade olhou... Que olhar profundo
  Que sonha e espera?... Ah como  feio o mundo,
  E os homens vos!--Ento, devagarinho,

  Sror Sadade entrou no seu convento...
  E, at morrer, rezou, sem um lamento,
  Por _Um_ que se perdera no caminho!...




ESQUECIMENTO


  sse de quem eu era e que era meu,
  Que foi um sonho e foi realidade,
  Que me vestiu a alma de sadade,
  Para sempre de mim desapar'ceu.

  Tudo em redor ento escureceu,
  E foi longnqua tda a claridade!
  Ceguei... tateio sombras... Que ansiedade!
  Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

  Descem em mim poentes de Novembro...
  A sombra dos meus olhos, a escurecer...
  Veste de roxo e negro os crisantemos...

  E dsse que era meu j me no lembro...
  Ah, a doce agonia de esquecer
  A lembrar doidamente o que esquecemos!...




LOUCURA


  Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
  Pavorosa! No sei onde era dantes.
  Meu solar, meus palcios, meus mirantes!
  No sei de nada, Deus, no sei de nada!...

  Passa em tropel febril a cavalgada
  Das paixes e loucuras triunfantes!
  Rasgam-se as sdas, quebram-se os diamantes!
  No tenho nada, Deus, no tenho nada!...

  Pesadelos de insnia, brios de anseio!
  Loucura a esboar-se, a ennegrecer
  Cada vez mais as trevas do meu seio!

   pavoroso mal de ser szinha!
   pavoroso e atroz mal de trazer
  Tantas almas a rir dentro da minha!




DEIXAI ENTRAR A MORTE


  Deixai entrar a Morte, a iluminada,
  A que vem para mim, p'ra me levar.
  Abri tdas as portas par em par
  Como asas a bater em revoada.

  Que sou eu neste mundo? A desherdada,
  A que prendeu nas mos todo o luar,
  A vida inteira, o sonho, a terra, o mar,
  E que, ao abri-las, no encontrou nada!

   Me!  minha Me, p'ra que nasceste?
  Entre agonias e em dores tamanhas
  P'ra que foi, dize l, que me trouxeste

  Dentro de ti?... P'ra que eu tivesse sido
  Smente o fruto amargo das entranhas
  Dum lrio que em m hora foi nascido!...




 MORTE


  Morte, minha Senhora Dona Morte,
  To bom que deve ser o teu abrao!
  Lnguido e doce como um doce lao
  E como uma raiz, sereno e forte.

  No h mal que no sare ou no conforte
  Tua mo que nos guia passo a passo,
  Em ti, dentro de ti, no teu regao
  No h triste destino nem m sorte.

  Dona Morte dos dedos de veludo,
  Fecha-me os olhos que j viram tudo!
  Prende-me as asas que voaram tanto!

  Vim da Moirama, sou filha de rei,
  M fada me encantou e aqui fiquei
   tua espera... quebra-me o encanto!




POBREZINHA


  Nas nossas duas sinas to contrrias
  Um pelo outro somos ignorados:
  Sou filha de regies imaginrias,
  Tu pisas mundos firmes j pisados.

  Trago no olhar vises extraordinrias
  De coisas que abracei de olhos fechados...
  Em mim no trago nada, como os prias...
  S tenho os astros, como os desherdados...

  E das tuas riquezas e de ti
  Nada me deste e eu nada recebi,
  Nem o beijo que passa e que consola.

  E o meu corpo, minh'alma e corao
  Tudo em risos poisei na tua mo!...
  ...Ah, como  bom um pobre dar esmola!...

    ste soneto e os seguintes so publicados pela primeira vez em
    volume.




ROSEIRA BRAVA


  H nos teus olhos de oiro um tal fulgor
  E no teu riso tanta claridade,
  Que o lembrar-me de ti  ter sadade
  Duma roseira brava tda em flor.

  Tuas mos foram feitas para a dor,
  Para os gestos de doura e piedade;
  E os teus beijos de sonho e de ansiedade
  So como a alma a arder do prprio amor!

  Nasci envolta em trajes de mendiga;
  E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
  Deste-me o manto de oiro de ranha!

  Tua irm... teu amor... e tua amiga...
  E tambm--tda em flor--a tua filha,
  Minha roseira brava que  s minha!...




NAVIOS FANTASMAS


  O arabesco fantstico do fumo
  Do meu cigarro traa o que disseste,
  A azul, no ar, e o que me escreveste,
  E tudo o que sonhaste e eu presumo.

  Para a minha alma esttica e sem rumo,
  A lembrana de tudo o que me deste
  Passa como o navio que perdeste,
  No arabesco fantstico do fumo...

  L vo! L vo! Sem velas e sem mastros,
  Tm o brilho rutilante de astros,
  Navios-fantasmas, perdem-se a distncia!

  Vo-me buscar, sem mastros e sem velas,
  Noiva-menina, as doidas caravelas,
  Ao ignoto Pas da minha infncia...




O MEU SONETO


  Em atitudes e em ritmos fleugmticos,
  Erguendo as mos em gestos recolhidos,
  Todos brocados flgidos, hierticos,
  Em ti andam bailando os meus sentidos...

  E os meus olhos serenos, enigmticos.
  Meninos que na estrada andam perdidos,
  Dolorosos, tristssimos, extticos,
  So letras de poemas nunca lidos...

  As magnlias abertas dos meus dedos
  So mistrios, so filtros, so enredos
  Que pecados d'amor trazem de-rastos...

  E a minha bca, a rtila manh,
  Na via-lctea, lirica, pag,
  A rir desfolha as ptalas dos astros!...




NIHIL NOVUM


  Na penumbra do prtico encantado
  De Bruges, noutras eras, j vivi;
  Vi os templos do Egipto com Loti;
  Lancei flores, na ndia, ao rio sagrado.

  No horizonte de bruma opalizado,
  Frente ao Bsforo errei, pensando em ti!
  O silncio dos claustros conheci
  Pelos poentes de ncar e brocado...

  Mordi as rosas brancas de Ispahan
  E o gsto a cinza em tdas era igual!
  Sempre a charneca brbara e deserta,

  Triste, a florir numa ansiedade v!
  Sempre da vida--o mesmo estranho mal,
  E o corao--a mesma chaga aberta!




[End of _Reliqui_ by Florbela Espanca]

[Fin de _Reliqui_ par Florbela Espanca]
